sábado, 29 de outubro de 2011

Sozinho na Noite - Sozinho na Noite - Parte 04/07

“Acaso, ó criador, pedi que do barro me moldasse homem? Porventura pedi que das trevas me erguesse?”
(John Milton, Paradise Lost)

Com o raiar do dia, veio-lhe o sono, porém, antes de dormir, lembrou-se de desconectar o telefone. Seus dias agora começariam logo após o ocaso. Esperava um dia de descanso tranquilo, mas não teve. A campainha tocou por diversas vezes, chegou a escutar pedras batendo na madeira de sua janela - Que ousadia!

Levantou-se apenas quando o relógio marcava vinte e duas horas, sentia a fome revirar seu estômago e suas pernas o guiaram automaticamente para a cozinha. Enquanto praguejava o dia mal dormido e o odor fétido da louça e do lixo na pia, sem pensar no que fazia, encheu um copo de água e entornou num gole só. Olhou assustado para o copo vazio, ao mesmo tempo em que percebia ter se sentido bem com a água. - Talvez a transição seja lenta, como no livro de Bram Stoker, meu estomago deixará de aceitar comida aos poucos, como o de Mis. Harker, meus caninos apareceram somente no fim de tudo, quando eu morrer de vez. No entanto, existem algumas coisas bem diferentes do livro! Minha intolerância repentina ao sol foi uma delas!

*********

- Mas que droga, Caio, é verdade! Liguei para o Paulão ontem e ele não atendeu, dei uma passada de carro lá e estava tudo fechado. ........... Que?............ Não, toquei não. .............. Como pode não ser nada, cara? Quantas vezes o Paulão sumiu desde que conhecemos ele? Só quero ver se está tudo bem com ele antes de irmos pro churras... ............... Tô passando ae, mas se arruma logo, sua moça!

Luciano desligou o telefone, avisou a sua mãe que estava de saída e desceu para a garagem. Em poucos minutos tocava a campainha na casa de Caio.

- Entra, Lu! O Caio ainda está no banho.
- Obrigado, Dona Vera, mas vou esperar aqui fora mesmo, e avisa seu filho que ele é um viadinho! Haha!
- Se quer esperar no sol, não posso fazer nada, mas pode deixar que eu dou seu recado sim, Lu. Vocês são umas figuras mesmo!

Quinze minutos se arrastaram até que Caio finalmente entrasse no carro e Luciano desse a partida. Como de costume, não se cumprimentaram, se conheciam a tanto tempo que haviam deixado para trás algumas formalidades. No rádio tocava, em um volume insalubre, um álbum dos Beast Boys. Nenhuma palavra foi trocada até que o carro parasse na frente da casa de Paulão e Luciano desligasse o rádio.

- Viu, tudo fechado, o carro aí na frente, isso não tá certo cara, não tá não!
- Verdade, Luke, está na hora de pegarmos nossos sabres de laser e nos vingarmos de todo o império pelo sumiço do grande rebelde Paulão...
- Porque você não vai se foder?
- Desculpa, não consigo evitar, Lu. Vamos lá tocar a campainha.

Caio só começou a ficar preocupado quando percebeu que, por mais que tocasse a campainha, ninguém atendia. Arremessou pedras na janela do quarto, mesmo contra a vontade de Luciano. Depois de quinze minutos chegaram à conclusão de que realmente não havia ninguém na casa e foram para o churrasco.

*********

Apesar da lasanha de microondas estar deliciosa, Paulão se conteve e comeu apenas metade - Terei de esquecer estes prazeres mortais, este é apenas meu alimento provisório -. Tomou água até sentir sua fome passar. Aproveitou o tempo livre para colocar a casa em ordem, lavou a louça, varreu e passou pano por toda a casa, jogou tudo que achava desnecessário para um vampiro no grande cômodo de despejo. Sentou-se em sua cama e olhou para o armário - Sou um vampiro, tenho de me vestir como um vampiro -. Procurou selecionar todas as roupas negras que dispusesse, descartaria as demais. Percebeu um inconveniente, daqueles que nenhum livro ou seriado de televisão jamais havia mostrado: muitas de suas roupas estavam sujas e teria de lavá-las, sorriu com a idéia de ser um vampiro lavando cuecas e meias, pensou em como gostaria de ver a si mesmo fazendo aquilo, mas seu sorriso sumiu ao lembrar-se da exasperante falta de imagem caso tentasse registrar a si mesmo com uma câmera. Nunca havia amado a Deus, mas, mesmo assim não se sentia confortável em ser rejeitado por ele.

O corpo todo doía mais que no dia anterior, mas, na cabeça, o que sentia não podia ao menos ser chamado de dor, se tratava apenas de um leve incomodo. Apesar de sentir seu corpo moído, não era isso que o incomodava, e sim, seu nariz que não parava de escorrer nem por um segundo - Vampiros não devem morrer de rinite!

Tendo concluído todos os seus afazeres, Paulão percebeu que o dia já estava para nascer mais uma vez, pois o relógio indicava cinco horas da manhã. Se fosse um dia normal, levantaria dali duas horas para se preparar para o trabalho - Será que devo telefonar e dizer que estou doente, ou devo simplesmente faltar? Largarei meu emprego de qualquer forma, mas não queria deixar Emilia preocupada comigo... Só que... Mesmo se eu ligar e avisar que não vou porque estou doente, ela vai ficar preocupada! Ahhh! Agora eu não sou mais um mortal, não posso me preocupar com esse tipo de coisa... Mas... Não tenho muito dinheiro guardado, se eu parar de trabalhar, logo não terei nem para pagar o IPTU, imagine só para pagar luz e água? Também não terei dinheiro para comprar novas roupas ou colocar gasolina no carro... Por que isso foi acontecer logo comigo? Jamais imaginei que para ser um vampiro eu teria também de ser um andarilho! Será que existem grupos de vampiros que se ajudam, como uma fraternidade? Como poderei encontrá-los? Aquele gato, aquele gato que me transformou nisso... Por que não veio me ajudar? Por que não me transformou em um discípulo seu? Talvez esteja esperando que a transformação se complete para que eu, em algum momento de desespero, tente matá-lo para não me transformar em um vampiro completamente. Isso! Talvez eu deva fazer isso! Seria ótimo se eu conseguisse caçá-lo e interromper esta transformação, voltar a ser um humano, talvez antes mesmo de perder o emprego! Vou ligar e dizer que estou doente, muito doente, vou dizer que andei tendo dores no coração e dificuldades para respirar, ninguém vai obrigar um gordo prestes a enfartar a voltar ao trabalho! Agora eu sou um renegado, um caçador, não tenho família, não tenho amigos, não tenho parceiros, sou um homem, mas sou também um monstro, estarei sozinho daqui pra frente, serei uma criatura, um ser sozinho na noite.

Com um sorriso nos lábios, Paulão dormiu.

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